quinta-feira, 8 de setembro de 2011

E por fim, deu-lhe o nome de Amor... (Caliê)









E por fim, deu-lhe o nome de Amor
e a fez transbordar de brilho e carinho.

Se asas não tiveres,
ao menos olhe em minha direção,
e meus olhos tão inquietos
estarão a fitar-lhe o encanto.

Se lhe pareço distante e peregrino,
peço apenas que rume ao meu alcance,
sem pausa nem descanso,
em tuas madrugadas de ninguém.

Será tua, toda a minha alma.
Conhecerás meu coração,
como conheces cada entranha do mar
onde te deitas todas as noites.

Eu te darei o nome mais lindo,
e tão sincero serei ao chamar-te,
que meu grito ecoará em todo o céu
por milhões de anos-luz.

Os dois, juntos, passaram à longas conversas
E uma alegria, que não sabiam resistir.
Ele, correndo pela areia macia,
e ela pairando no céu estrelado.

E assim foi a noite.
Breve, como sempre é
o tempo da felicidade.

Serás tu, aurora, a despontar em meus olhos?
Serás tu, a trazer-me o pranto do amanhecer,
e a roubar-me a beleza que a noite me traz?
Não agora, eu imploro!

Assim como veio, tão veloz a noite se foi.



(Poema publicado com o gentil consentimento da própria autora: Caliê)


terça-feira, 6 de setembro de 2011

Nem tudo é fácil (Cecília Meireles)

 

Nem tudo é fácil

É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste.
É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada
É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre.
É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia.
É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.
É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo.
É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar.
É difícil colocar-se no lugar de alguém, assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.
Se você errou, peça desculpas...
É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado?
Se alguém errou com você, perdoa-o...
É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender?
Se você sente algo, diga...
É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar
alguém que queira escutar?
Se alguém reclama de você, ouça...
É difícil ouvir certas coisas? Mas quem disse que é fácil ouvir você?
Se alguém te ama, ame-o...
É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz?
Nem tudo é fácil na vida...Mas, com certeza, nada é impossível
Precisamos acreditar, ter fé e lutar
para que não apenas sonhemos, Mas também tornemos todos esses desejos,
realidade!!!


Cecília Meireles


Pus o meu sonho num navio (Cecília Meireles / Amália Rodrigues)

     Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; - depois, abri o mar com as mãos, para o meu sonho naufragar.
    Minhas mãos ainda estão molhadas do azul das ondas entreabertas, e a cor que escorre de meus dedos colore as areias desertas.
    O vento vem vindo de longe, a noite se curva de frio; debaixo da água vai morrendo meu sonho, dentro de um navio…
    Chorarei quanto for preciso, para fazer com que o mar cresça, e o meu navio chegue ao fundo e o meu sonho desapareça.
    Depois, tudo estará perfeito: praia lisa, águas ordenadas, meus olhos secos como pedras e as minhas duas mãos quebradas. 
     
    Cecília Meireles
       

       
       

    COMETA BOBAGENS (Fabricio Carpinejar)

     


    Cometa bobagens. 

    Não pense demais porque o pensamento já mudou assim que se pensou. 

    O que acontece normalmente, encaixado, sem arestas, não é lembrado. 

    Ninguém lembra do que foi normal. 

    Lembramos do porre, do fora, do desaforo, dos enganos, das cenas patéticas em que nos declaramos em público. 

    Cometa bobagens. Dispute uma corrida com o silêncio. Não há anjo a salvar os ouvidos, não há semideus a cerrar a boca para que o seu futuro do passado não seja ressentimento. 

    Demita o guarda-chuva, desafie a timidez, converse mais do que o permitido, coma melancia e vá tomar banho de rio. 

    Mexa as chaves no bolso para despertar uma porta. Cometa bobagens. 

    Não compre manual para criar os filhos, para prender o gozo, para despistar os fantasmas. Não existe manual que ensine a cometer bobagens. 

    Não seja sério; a seriedade é duvidosa; seja alegre; a alegria é interrogativa. Quem ri não devolve o ar que respira. 

    Não atravesse o corpo na faixa de segurança. Grite para o vizinho que você não suporta mais não ser incomodado. 

    Use roupas com alguma lembrança. Use a memória das roupas mais do que as próprias roupas. Desista da agenda, dos papéis amarelos, de qualquer informação que não seja um bilhete de trem. Procure falar o que não vem à cabeça. 

    Cantarolar uma música ainda sem letra. Deixe varrerem seus pés, case sem namorar, namore sem casar. 

    Seja imprudente porque, quando se anda em linha reta, não há histórias para contar. Leve uma árvore para passear. Chore nos filmes babacas, durma nos filmes sérios. 

    Não espere as segundas intenções para chegar às primeiras. 

    Não diga “eu sei, eu sei”, quando nem ouviu direito. 

    Almoce sozinho para sentir saudades do que não foi servido em sua vida. 

    Ligue sem motivo para o amigo, leia o livro sem procurar coerência, ame sem pedir contrato, esqueça de ser o que os outros esperam para ser os outros em você. 

    Transforme o sapato em um barco, ponha-o na água com a sua foto dentro. 

    Não arrume a casa na segunda-feira. Não sofra com o fim do domingo. Alterne a respiração com um beijo. 

    Volte tarde. Dispense o casaco para se gripar. Solte palavrão para valorizar depois cada palavra de afeto. 

    Complique o que é muito simples. Conte uma piada sem rir antes. 

    Não chore para chantagear. Cometa bobagens. 

    Ninguém lembra do que foi normal. Que as suas lembranças não sejam o que ficou por dizer. 

    É preferível a coragem da mentira à covardia da verdade.

    Fabricio Carpinejar



    segunda-feira, 5 de setembro de 2011

    Renda-se, como eu me rendi... (Clarice Lispector)



    "Renda-se, como eu me rendi. 
    Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. 
    Não se preocupe em entender, 
    viver ultrapassa qualquer entendimento." 

     



    Clarice Lispector


    sexta-feira, 2 de setembro de 2011

    ACARICIO TUA PORCELANA, RARA E MACIA...

      
     
    ACARICIO TUA PORCELANA, RARA E MACIA

    ORVALHADA, COM PERFUME DE LUZ.

    ESCONDIDA ENTRE TUAS COXAS MACIAS E A CAMINHO DE TEU VENTRE AVELUDADO.

    BAILAS ANTE MEU TOQUE, DESLIZAS EM MEU CORPO.

    ÚNICA PORCELANA, ÚMIDA DE LUAR

    VASO QUE RECEBE MINHA ROSA INTEIRA.

    DEITO MEU BEIJO EM TUAS CURVAS SEDOSAS,

    PROVO DE TODAS AS TUAS IGUARIAS

    LEVE E NUA, TE OFERECES ACETINADAMENTE ACESA

    MATIZADA DE  DESEJOS INCESSANTES.

    SÓ EU SEI O CAMINHO E A MANEIRA,

    SÓ EU SEI DA MAGIA E ALQUIMIA

    DE TE FAZER LEVITAR, ENTREGANDO-TE NOVAS ENERGIAS

    TEU CORPO CRESCE, TUA ESTRELA CINTILA

    TUA ALMA SE ELEVA E SE DIVINIZA.

    DENTRO DE TUA PORCELANA

    EU ME APROFUNDO E LÁ ME ACONCHEGO

    PARA NÃO MAIS QUERER SAIR.

    quinta-feira, 1 de setembro de 2011

    Quando você conseguir... (Chico Xavier)

     
    Quando você conseguir superar
    graves problemas de relacionamento,
    não se detenha na lembrança dos momentos difíceis,
    mas na alegria de haver atravessado
    mais essa prova em sua vida.

    Quando sair de um longo tratamento de saúde,
    não pense no sofrimento
    que foi necessário enfrentar,
    mas na bênção de Deus
    que permitiu a cura.

    Leve na sua memória, para o resto da vida,
    as coisas boas que surgiram nas dificuldades.
    Elas serão uma prova de sua capacidade,
    e lhe darão confiança
    diante de qualquer obstáculo.

    Uns queriam um emprego melhor;
    outros, só um emprego.
    Uns queriam uma refeição mais farta;
    outros, só uma refeição.
    Uns queriam uma vida mais amena;
    outros, apenas viver.
    Uns queriam pais mais esclarecidos;
    outros, ter pais.

    Uns queriam ter olhos claros;
    outros, enxergar.
    Uns queriam ter voz bonita;
    outros, falar.
    Uns queriam silêncio;
    outros, ouvir.
    Uns queriam sapato novo;
    outros, ter pés.

    Uns queriam um carro;
    outros, andar.
    Uns queriam o supérfluo;
    outros, apenas o necessário.

    Há dois tipos de sabedoria:
    a inferior e a superior.

    A sabedoria inferior é dada pelo quanto uma pessoa sabe
    e a superior é dada pelo quanto ela tem consciência de que não sabe.
    Tenha a sabedoria superior.
    Seja um eterno aprendiz na escola da vida.

    A sabedoria superior tolera;
    a inferior, julga;
    a superior, alivia;
    a inferior, culpa;
    a superior, perdoa;
    a inferior, condena.
    Tem coisas que o coração só fala
    para quem sabe escutar!

    Chico Xavier